eu comecei a cantar com 22 anos.
nessa época, eu distrubuía amostra grátis nos supermercados,
panfletos nos faróis, servia café no espaço unibanco
e ficava vestida de princesa em festa infantil
sendo assediada pelos pais das crianças
(pense num pesadelo duplo).
eu morava num pensionato com mais 10 garotas,
muitas faziam programas e eu trocava altas idéias
com elas para aprender sobre suas duras realidades.
elas eram muito acolhedoras e generosas
e me ensinaram muitas coisas.
tinha dia que, pra comer, era só uma panelinha
de arroz com limão ou miojo gourmetizado
com as azeitona véia da geladeira.
o quarto em que eu dormia não tinha janela
e alguns ratos no telhado me faziam companhia na madrugada.
o rolê era esse.
por isso, quando alguém me ofereceu uma vaga
pra cantar num hotel, eu abracei com força – mesmo sem saber cantar.
eu não sabia o que era melodia, harmonia, tom ou compasso.
encarei o teste, decorei três músicas da billie holiday e ganhei a vaga.
também descobri um caminho pra vida.
alguns anos e muitos bares, pé sujos,
botecos e baretto depois, consegui juntar dinheiro
pra gravar o meu primeiro disco independente.
aí surgiram gravadoras, música em novela e públicos grandes que eu nunca visto.
conheci artistas consagradxs, muitos meus heróis e heroínas da música brasileira.
com alguns gravei, fiz amigxs, bebi muito quando
meu pai morreu e também fiz discos ruins.
dezesseis anos depois, mais especificamente hoje,
tenho orgulho de ter me tornado o que sou.
de ser verdadeira sempre – e isso tem um preço alto.
de escolher o lado em que acredito, de defender
a democracia e lutar de corpo e alma por ela.
toda vez que saio para trabalhar carregando minha mala,
microfone, estante, cabos, afinador e o meu parceiro
e amado violão (o primeiro que tive comprei
na teodoro por 80 conto e compus “esconderijo” nele),
eu agradeço.
agradeço por poder viver de música num país
onde a cultura é profundamente menosprezada.
agradeço por ter uma gente linda
que sai de casa pra me ouvir cantar.
eu olho pra trás e só AGRADEÇO.
a estrada da vida tem muitos percalços.
mas faça chuva ou faça sol, se você plantar
sementes de amor ao longo do caminho, elas brotarão.
sempre.

uma noite inesquecível com a presença iluminada de
Mônica Tereza Benício no show de ontem.
ela emocionou a todxs com suas palavras,
durante o show, sobre sua companheira Marielle Franco.
uma noite que reuniu muita gente linda
em torno de um só obejtivo: AMOR
OBRIGADA ESSEPÊ